Uma conversa que pode salvar vidas

Boca a Boca é a cartilha digital de conscientização sobre o câncer de boca, criada por estudantes de Odontologia para feirantes de todo o Brasil e para quem trabalha ou vive exposto ao sol no dia a dia.

Desce e descobre
Por que a feira livre?

Porque vocês são parte da cidade

A feira livre é um dos patrimônios mais vivos do Rio de Janeiro: um ponto de encontro, de trabalho e de afeto que resiste todos os dias, chova ou faça sol. E é exatamente esse "faça sol" que nos trouxe até aqui.

Passar horas exposto ao sol, sem sombra fixa, é um dos fatores de risco menos falados do câncer de boca — principalmente do câncer de lábio. Escolhemos conversar com vocês, feirantes do Recreio, porque fazem parte do cotidiano carioca e merecem receber essa informação em primeira mão.

Sol o dia inteiro, todo dia

Um estudo nacional publicado em 2025 mostrou que trabalhadores em ambientes abertos têm 59,7% de exposição à radiação solar, contra 3% de quem trabalha em ambientes fechados. O câncer de lábio só passou a ser reconhecido como doença ocupacional no Brasil em 2023.1

Entendendo o problema

O que é o câncer de boca?

É o crescimento desordenado de células que pode aparecer nos lábios, na língua, nas bochechas, na gengiva, no céu da boca ou embaixo da língua. Estudos brasileiros mostram tendência de aumento na mortalidade por câncer bucal entre 2010 e 2019, com predomínio entre homens.3 Na maioria das vezes, ele dá sinais visíveis antes de virar um problema grave — por isso a informação e o diagnóstico precoce fazem tanta diferença.

9,65×

mais risco de câncer bucal quando cigarro e álcool são combinados, em vez de usados isoladamente

Fonte: Andrade, Santos & Oliveira, 20152
23,5%

dos trabalhadores brasileiros estão expostos à radiação solar no trabalho — ao ar livre, esse número quase triplica

Fonte: Nogueira et al., 20251
74%

dos casos de câncer bucal no Brasil levam mais de 60 dias pra iniciar o tratamento após o diagnóstico

Fonte: Amaral et al., 20223
Fique de olho

O que aumenta o risco

Alguns fatores já são bem conhecidos. Outros, como a exposição solar, ainda passam batido — principalmente pra quem trabalha ao ar livre.

Cigarro, em qualquer forma

Fumar mais de 20 cigarros por dia multiplica por 6,6 o risco de câncer bucal, segundo estudo caso-controle no Nordeste do Brasil.2

Álcool em excesso

O consumo elevado de álcool triplica o risco sozinho — e junto com o cigarro, os dois multiplicam o risco por quase 10 vezes.2

HPV

Uma revisão sistemática encontrou o subtipo HPV 16 em até 45% dos casos de câncer na orofaringe.4

Higiene e atrito constante

Dentes quebrados ou próteses mal ajustadas machucando sempre o mesmo lugar da boca.

Não ignore

Sinais de alerta na boca

Nenhum desses sinais, sozinho, quer dizer que é câncer — mas todos merecem uma visita ao dentista, principalmente se durarem mais de 2 a 3 semanas.

  • Ferida na boca ou no lábio que não cicatriza
  • Mancha branca ou vermelha que não sai
  • Caroço ou espessamento no lábio, bochecha ou pescoço
  • Dificuldade ou dor pra engolir e mastigar
  • Dormência na língua, no lábio ou em qualquer parte da boca
  • Rouquidão ou mudança na voz que não passa
  • Sangramento na boca sem motivo aparente
  • Dente que fica mole sem explicação

Sinal que passou de 2 a 3 semanas sem melhorar? Não espera: marca um dentista.

Vira o hábito

Autoexame da boca em 6 passos

A literatura odontológica aponta o autoexame como estratégia simples e eficaz de prevenção e diagnóstico precoce do câncer bucal.5 Leva menos de 2 minutos, pode ser feito em casa, na frente do espelho — o ideal é repetir 1 vez por mês.

1

Escolha um lugar bem iluminado

Use um espelho de mão junto com um espelho grande, pra conseguir ver toda a boca.

2

Observe os lábios

Por fora e por dentro: procure feridas, manchas, inchaços ou qualquer mudança de cor.

3

Puxe a bochecha e olhe por dentro

Observe também a gengiva e o céu da boca: áreas brancas, vermelhas ou feridas que não cicatrizam.

4

Ponha a língua pra fora

Olhe todos os lados: caroços, feridas ou mudança na textura.

5

Passe os dedos de leve

No lábio, na bochecha e no pescoço, sentindo se tem caroço ou endurecimento.

6

Repita todo mês

E lembre: autoexame ajuda a perceber cedo, mas não substitui a consulta com um dentista.

Na prática

Cuidados pra quem vive de sol a sol

Ajustes simples no dia a dia da feira que fazem muita diferença lá na frente.

Protetor labial com FPS 30+

Reaplique a cada 3 a 4 horas de sol, igual protetor de pele.

Chapéu, boné ou barraca

Uma sombra fixa protege muito mais que qualquer creme sozinho.

Evite o sol das 10h às 16h

Quando der pra ajustar a barraca ou revezar, esse é o horário mais forte.

Beba água, hidrate os lábios

Sol resseca a pele dos lábios e deixa tudo mais sensível a machucados.

Reduza cigarro e álcool

Os dois maiores fatores de risco isolados do câncer de boca.

Dentista 2x por ano

Pelo SUS é gratuito — e é lá que muitos sinais são pegos bem cedo.

Não espere

Notou algum sinal? Procure um dentista

Se qualquer sinal de alerta durar mais de 2 a 3 semanas, marque uma consulta — pode ser numa Unidade Básica de Saúde (UBS), pelo SUS. Um estudo brasileiro encontrou que 74% dos casos de câncer bucal levam mais de 60 dias pra iniciar o tratamento depois do diagnóstico3 — por isso, quanto antes um sinal é investigado, menor a demora até o cuidado certo. Vale muito mais a pena checar e descobrir que não é nada.

Como construímos isso

Duas frentes, apoiadas na literatura

O projeto combina uma cartilha digital com uma ação de conscientização presencial na feira. Nenhuma das duas escolhas foi por acaso — as duas seguem caminhos discutidos na literatura científica sobre educação em saúde.

Cartilha digital Fugindo do panfleto genérico

Uma pesquisa bibliográfica sobre materiais impressos em saúde mostrou que a maioria segue um modelo unilinear e impessoal, tratando quem lê como receptor passivo, quase sem participação do público na escolha de linguagem e conteúdo.6 Por isso, desenhamos essa cartilha na linguagem da feira, com uma identidade visual pensada pra esse público — não um folheto padrão de posto de saúde.

Conscientização presencial Levando a universidade pra rua

Revisões de literatura apontam a extensão universitária em saúde bucal como especialmente relevante em comunidades com menos acesso a serviços odontológicos, ajudando a melhorar conhecimento e atitudes de cuidado.7 A conversa cara a cara na feira segue essa mesma lógica: aproximar quem estuda Odontologia de quem, no dia a dia, tem menos contato com esse tipo de informação.

Quem faz o Boca a Boca

Um projeto de extensão da Estácio Recreio

Essa cartilha nasceu na disciplina de Estomatologia, sob orientação da professora Carla Renata, na Universidade Estácio de Sá — Campus Recreio.

Somos um grupo de estudantes de Odontologia que decidiu levar essa conversa pra fora da sala de aula, direto pra quem constrói o dia a dia do Recreio: os feirantes.

Se esse conteúdo te ajudou, espalha pra frente — de boca a boca.

Equipe

  • Iasmin C. de Santanna
  • Isabella Carvalho
  • Jorge Vieira
  • Maria Eduarda O. da Silveira
  • Serlon Cardoso

Orientação: Profa. Carla Renata · Estomatologia · Universidade Estácio de Sá, Campus Recreio

Transparência

Referências científicas

Toda informação usada nessa cartilha — sobre o câncer de boca e sobre a metodologia do projeto — foi extraída de artigos publicados em periódicos científicos revisados por pares. Marcações como esta1, ao longo do texto, levam até a referência completa aqui embaixo.

  • 1NOGUEIRA, F. A. M.; DAMACENA, G. N.; OTERO, U. B.; SZWARCWALD, C. L. Prevalência da exposição à radiação solar em trabalhadores no Brasil: subsídios para ações de prevenção do câncer de pele relacionado ao trabalho. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 71, n. 1, 2025. Disponível em: doi.org/10.32635/2176-9745.RBC.2025v71n1.4880
  • 2ANDRADE, J. O. M.; SANTOS, C. A. S. T.; OLIVEIRA, M. C. Fatores associados ao câncer de boca: um estudo de caso-controle em uma população do Nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 18, n. 4, p. 894-905, 2015. Disponível em: scielo.br/j/rbepid
  • 3AMARAL, R. C.; ANDRADE, R. A. R.; COUTO, G. R.; HERRERA-SERNA, B. Y.; REZENDE-SILVA, E.; CARDOSO, M. C. A. C. Trends in Oral Cancer Mortality in Brazil by Region and main Risk Factors. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 68, n. 2, 2022. Disponível em: doi.org/10.32635/2176-9745.RBC.2022v68n2.1877
  • 4MORAIS, E. F.; TINÔCO, J. M. L.; ALMEIDA, G. E.; NEVES, J. U.; ARAÚJO, J. E. T. Avaliação do efeito carcinogênico do papilomavírus humano em cavidade oral e orofaringe: uma revisão sistemática. Revista Médica de Minas Gerais, v. 26, e1836, 2017. Disponível em: rmmg.org/artigo/detalhes/2237
  • 5TORRES, I. A. O auto-exame da boca como estratégia para a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer bucal. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 42, n. 1, p. 66-71, 1996. Disponível em: doi.org/10.32635/2176-9745.RBC.1996v42n1.2888
  • 6FREITAS, F. V.; REZENDE FILHO, L. A. Modelos de comunicação e uso de impressos na educação em saúde: uma pesquisa bibliográfica. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 15, n. 36, p. 243-255, 2011. Disponível em: scielo.br/j/icse
  • 7DIAS, L. A.; ALMEIDA, M. A. A. Importância de projeto de extensão em saúde bucal em comunidades vulneráveis: revisão de literatura. Revista FT, v. 29, n. 140, 2024. Disponível em: revistaft.com.br